Palestra rompe o silêncio sobre o autismo na vida adulta
Para o psicólogo, o autoconhecimento é a grande chave para o diagnóstico seguro

Imagine passar décadas da sua vida sentindo que não se encaixa no mundo. Viver numa sensação constante de exaustão social, de estar continuamente interpretando um papel, sem nunca entender o porquê. Para milhares de adultos, essa não é uma metáfora, é a realidade de viver com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) sem o diagnóstico.

Para romper esse silêncio, a Escola do Legislativo Senador Ramez Tebet realizou na manhã desta segunda-feira (6), no Plenarinho Nelito Câmara, a palestra “Autismo e Inclusão na Vida Adulta: Informação, Conscientização e Acolhimento”, realizada em alusão ao Abril Azul. O psicólogo Thiago dos Santos Ferraz explicou como a “camuflagem social” escondeu esses adultos por décadas.

“Historicamente, o diagnóstico do autismo foi desenhado para identificar na primeira infância com comportamentos muito clássicos. Quem não se encaixava nesse molde, especialmente mulheres e adultos com traços mais sutis, foi deixado à margem. Eles aprenderam a mascarar seus sintomas para sobreviver socialmente, mas o custo disso é altíssimo: ansiedade, depressão e burnout. O autoconhecimento é a grande chave para o diagnóstico seguro”, explicou o psicólogo.

Durante o evento, a psicóloga Luana Medeiros, de 26 anos, fez um relato sobre como chegou ao diagnóstico. Na escola, o método tradicional de ensino não fazia sentido para ela, era a mãe quem precisava reensinar todo o conteúdo dado em sala de aula. Nas amizades, a dificuldade era ainda maior. Por falar verdades de forma muito direta, frequentemente era interpretada como indelicada. Para tentar organizar o caos interno, ela se apegava a rituais rígidos e repetitivos.

“O divisor de águas só aconteceu há dois anos, aos 24. Foi na minha profissão que obtive as respostas. Trabalhando na área e mergulhando no autoconhecimento, comecei a ligar os pontos. O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista não veio como um peso, mas como uma libertação. Hoje, com acompanhamento terapêutico, medicação adequada e a prática de exercícios físicos, encontro o equilíbrio que busquei a vida toda”, disse Luana.

A história de Luana não é uma exceção. Dados recentes revelam que até 89% dos autistas entre 40 e 59 anos nunca foram diagnosticados. “O que a sociedade não vê é que essas pessoas passaram a vida inteira tentando operar um sistema para o qual o cérebro delas não foi programado. Elas chegam buscando consertar o que acham que está quebrado, quando, na verdade, só precisam entender como funcionam. A camuflagem acaba sendo um mecanismo de sobrevivência. O problema é que manter isso exige uma energia mental colossal”, explicou Thiago.

O impacto da palestra ressoou intensamente junto ao público presente. Para a servidora pública Rázia Zocall Krug, que acompanhou a palestra atentamente, o evento deixou uma importante clara. “Nunca é tarde para se conhecer e o acolhimento começa quando a sociedade se dispõe a ouvir. Ao trazermos essa discussão para dentro da Assembleia, estamos dizendo a esses adultos que eles são vistos, que eles importam e que as políticas públicas precisam abraçar o autismo em todas as fases da vida”, falou a servidora.

Thiago reforçou que buscar uma avaliação com um profissional especializado é um ato de coragem e de amor-próprio. “O diagnóstico tardio é, no fim das contas, um encontro consigo mesmo. E nunca é tarde demais para se conhecer e se acolher. Sobre a inclusão, devemos ouvir, não julgar, entender e acolher. O mundo que queremos construir começa individualmente. Sejamos comunidade”.